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sexta-feira, 22 de junho de 2012

TRIBUTO A VIRGOLINO E IX ENCONTRO NORDESTINO DE XAXADO


 
TRIBUTO A VIRGOLINO
A CELEBRAÇÃO DO CANGAÇO
Dias 26, 27, 28 e 29 de julho de 2012.
- Na Estação do Forró -

PROGRAMAÇÃO

ESPETÁCULOS COM TODOS OS RITMOS NORDESTINOS

Dia 26 (Quinta feira)

09h00min 
Grupo Dinâmico Cultural – João Pessoa/PB;
Grupo Fênix - João Pessoa/PB.

Dia 27 (Sexta feira)

09h00min 
Grupo Dinâmico Cultural – João Pessoa/PB;
Grupo Fênix - João Pessoa/PB;
Grupo Imbalança – Carnaíba/PE.

Dia 28 (Sábado)

09h00min 
Grupo Mulheres do Cangaço – João Pessoa/PB;
Grupo Artefatos – Moreno/PE;
Cia. de Danças Raízes Nordestinas - Fortaleza/CE;
Grupo Tenente Lucena do SESC – João Pessoa/PB.

Dia 29 (Domingo)

09h00min 
Celebração do Cangaço - Ato Ecumênico;
Salva de Tiros com Bacamarteiros do Pajeu;
Banda de Pífanos do Caruá – Carnaíba/PE;
Violeiros Repentistas: Damião Enésio e Francinaldo Oliveira – Serra Talhada/PE;
Declamadores: Dedé Monteiro, Dudu Moraes e Neide Nascimento – Tabira/PE.
Show com Humberto Cellus e Produto Nordestino – Serra Talhada/PE.


IX ENCONTRO NORDESTINO
DE XAXADO
Dias 25, 26, 27, 28 e 29 de julho de 2012.
- Na Estação do Forró -

PROGRAMAÇÃO

Dia 25 (Quarta feira)

21h30min
Grupo Dinâmico Cultural – João Pessoa/PB;
Grupo Fênix - João Pessoa/PB;
Grupo de Dança Xaxado – Parnamirim/RN.
Show com As Severinas – São José do Egito/PE.

Dia 26 (Quinta feira)

21h30min
Grupo Dinâmico Cultural – João Pessoa/PB;
Grupo Fênix - João Pessoa/PB.
Grupo Renascer do Sertão de Jericó – Triunfo/PE.
Grupo Luar do Sertão - Custódia/PE;
Grupo Musical Xote Mania – Serra Talhada/PE.
 
Dia 27 (Sexta feira)

21h30min
Grupo Mulheres do Cangaço – João Pessoa/PB;
Grupo de Xaxado Gilvan Santos – Serra Talhada/PE; 
Cia. de Danças Raízes Nordestinas - Fortaleza/CE;
Espetáculo AS MARIAS, pela APDT  – Paulo Afonso/BA.
Grupo Tenente Lucena do SESC – João Pessoa/PB;
Trio Regional do SESC – João Pessoa/PB.

Dia 28 (Sábado)

21h30min
Grupo Mulheres do Cangaço – João Pessoa/PB;
Grupo de Artefatos – Moreno/PE;
Grupo Tenente Lucena do SESC – João Pessoa/PB. 
Cia. de Danças Raízes Nordestinas - Fortaleza/CE;
Naldinho Carvalho e Forró Tição de Fogo – Serra Talhada/PE.

Dia 29 (Domingo)

21h30min
Grupo Herdeiros do Xaxado – Serra Talhada/PE;
Grupo de Xaxado Manoel Martins – Serra Talhada/PE.
Grupo de Xaxado da Serra - Luis Gomes/RN. 
Cia. de Danças Raízes Nordestinas - Fortaleza/CE;
Show com Roberta Aureliano e Banda Fulô de Maracujá  - Maceió/AL.

Durante toda Programação estará acontecendo Feira de Artesanatos da região, livros e Literatura de Cordel.



O MASSACRE DE ANGICO - A MORTE DE LAMPIÃO


O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO - Um dos capítulos mais complexos da História do Brasil, os últimos dias da saga de Lampião, é a peça teatral  da autoria do pesquisador do cangaço, Anildomá Willans de Souza, direção de José Pimentel, no município de Serra Talhada.  A produção é da Fundação Cultural Cabras de Lampião, que teve o projeto aprovado pela Funarte / Ministério da Cultura.
A temporada irá acontecer no período de 25 a 29  de julho, na Estação do Forró. O diretor já está no município de Serra Talhada em longas jornadas de ensaios com os atores e atrizes, além de figurantes e técnicos. O papel de Lampião será vivenciado por Karl Marx, a Maria Bonita terá vida pela atriz alagoana Roberta Aureliano. O elenco que se destaca está assim composto:
Lampião..............................Karl Marx
Maria Bonita........................Roberta Aureliano
Dona Bela...........................Gorete Lima
Giboião...............................Gilberto Gomes
Padre Cícero.......................Taveira Júnior
Getúlio Vargas....................Feliciano Félix
Zé Saturnino.......................Taveira Júnior
Assistente I..........................Beto Filho
Assistente II......................... Marcos Fabrício
Assistente III........................Humberto Cellus
Pedro de Cândido...............Carlos Silva
Soldado...............................Taveira Júnior
Luiz Pedro...........................Diógenes de Lima
Zé Sereno............................Carlos Amorim
Sila....................................... Karine Gaia
Enedina................................Danúbia Feitosa
Dulce....................................Leandra Nunes
O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO retratará os últimos momentos dos cangaceiros chefiados por  Lampião, arranchados no leito de um riacho seco, na fazenda em Angico, Sertão de Sergipe, onde foram massacrados juntamente mais dez companheiros, entre eles, sua mulher, Maria Bonita,  no dia 28 de julho de 1938. Mas na construção do enredo são mostradas cenas do passado marcantes na história do Rei do Cangaço, como suas desavenças com o primeiro inimigo José Saturnino, seu encontro com Padre Cícero para receber a patente de capitão do Exercito Patriótico, uma das cenas será no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, séde presidencial da época,  onde o presidente Getúlio Vargas determina o fim do cangaço, várias outras cenas ligadas ao imaginário popular, com a cabroeira dançando xaxado, a traição de Pedro de Cândida, até culminar com a morte do casal mais famoso do cangaço, fazendo o expectador mergulhar na história, com uma arrojada trilha sonora, efeitos de luz e efeito especiais.
O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO vai reafirmar o estado de Pernambuco como o palco dos maiores espetáculos teatrais do Brasil. E, nesse caso, um grande autor, um consagrado diretor, para contar essa história de TRAIÇÃO, AMOR E ÓDIO, que tem como palco, os confins do sertão, na primeira metade do século passado.

FIGURANTES :

         Cangaceiros:

1.     Mannoel Lima
2.     Anderson Cristhian
3.     Gildo Alves
4.     Leandro Soares
5.     Marcelo George
6.     Bruno Vieira
7.     Franklin Gomes
8.     Gilberlanio Santos
9.     José Francisco de Souza
10.                       Antonio Carlos Amaral
11.                       Sandino Lamarca
12.                       Genésio Ferreira
13.                       Odair José
14.                       Kaká Ericsson
15.                       Cícero Alves
16.                       Freddye Pichôty
17.                       Miguel Taveira
18.                       Givanildo Pereira
19.                       Diego Adriano
20.                       Markfon Dantas

Mascarados:

1.     Carlos Silva
2.     Gorete Lima
3.     Juliana Guerra
4.     Karina Santiago
5.     Adriana Morais
6.     Victor Ferraz
7.     Gilberto Gomes
8.     Milena Raquel
9.     José Adriam
10.                       Vitória Lima
11.                       Andriele Caroline


terça-feira, 19 de junho de 2012

HISTÓRIA DO SERTÃO DO PAJEÚ E DO CANGAÇO


1.              A REGIÃO E SEU RIO 

O Pajeú está localizado no Sertão de Pernambuco, em área de 10.828 km2, que representa 8,78% do território estadual e com população de aproximadamente 300.000 pessoas.
O nome da região vem do nome do seu rio, que era chamado pelos índios de “Payaú”, ou “rio do pajé”.
O rio Pajeú nasce na serra do Balanço, em Brejinho , a uma altitude de 800m já nos limites com a Paraíba, e deságua no lago de Itaparica, formado pela barragem do São Francisco, depois de percorrer uma extensão de aproximadamente 353 km.
Os municípios totalmente inseridos na bacia do rio Pajeú são: Afogados da Ingazeira, Betânia, Brejinho, Calumbi, Flores, Ingazeira, Itapetim, Quixaba, Santa Cruz da Baixa Verde, Santa Terezinha, São José do Egito, Serra Talhada, Solidão, Tabira, Triunfo e Tuparetama. 

2.              O INÍCIO DA OCUPAÇÃO
A ocupação da área que atualmente compreende o Sertão do Pajeú , pelo colonizador português, teve inicio a partir de meados do século XVI.
A 1ª interiorização destas terras se deu a partir de Salvador. Assim, percebe-se um fator característico dos habitantes do Sertão do baixo e médio Pajeú : povoado por baianos e não por pernambucanos.
A povoação do alto Pajeú (cabeça do Pajeú ) se deu pela Paraíba, num período mais tardio.

3.              INDIOS,  PRIMEIROS HABITANTES 

É preciso recordar que antes da chegada do colonizador europeu, povoavam nesta região várias populações.
Dos nativos destacam-se os tapuias-cariris, que habitavam largas porções do agreste e do sertão.
Toda a região era chamada pelos portugueses de sertão ou “terras de dentro”.
Outras tribos vieram para o sertão fugindo do litoral, sobretudo os Cariris, ameaçados pelos colonizadores que escravizava-os ou simplesmente matava-os.
No sertão estavam principalmente os nativos que falavam uma língua, segundo os Tupis, muito diferente da deles e por isso denominaram-lhe de Tapuia, nome ofensivo que significa língua travada, bárbaro. O termo passou a ser usado pelos portugueses.
Das tribos tapuias que temos notícias, através de documentos, relatórios e crônicas da época colonial incluem-se os tamaqueus, koripós, kariri, paru, brankararu, pipipã, tuxá, trucá, umã e atikum.
Os tapuias pouco conheciam da agricultura, viviam como semi-nômades e tinham formas próprias de guerrear com tacape e lança.
Tinham o milho e o feijão como cultivos principais.
Usavam pouca cerâmica e não teciam; dormiam em estrados de madeira (jiraus).
Havia aldeia na margem do rio que podia ter até mil moradores.
O índio (ou nativo) sofreu perseguição desde o início da colonização e teve no século XVIII seu extermínio quase total, através das bandeiras montadas para sua captura.
Os índios do sertão sofreram guerras ou por defenderem as suas terras ou por pretenderem desfrutar os gados das fazendas que se espalhavam por seu território.
Os índios que não foram mortos ou escravizados refugiaram-se em aldeias dirigidas por missionários, chamadas de MISSÕES. Outros procuraram amparo com homens poderosos abraçando suas lutas e servindo-lhes, tornando-se vaqueiros ou jagunços.
O indígena trabalhava forçado nas Missões, ou como escravo nas fazendas de gado e plantações. Também nas casas como domésticos ou no trabalho de transporte.
O índio também foi cruelmente utilizado para guerrear contra outros nativos.
No final do século XVIII as chamadas “Guerras dos Bárbaros” praticamente exterminaram na bala e no facão as nações indígenas que resistiam contra os invasores brancos. Do baixo sertão até a cabeça do Pajeú, nos limites com a Paraíba, os índios foram caçados e massacrados.
Com base em pesquisas nos livros de batismo e casamento das paróquias do sertão pernambucano, no final do século XVIII e no século XIX, os índios nativos (registrados em geral como “da silva”) que sobreviveram já aparecem miscigenados com negros e brancos e constituem a massa da população brasileira dos sertões, conhecida como os pardos ou caboclos.  

 
4. OS HABITANTES DO PAJEÚ
A gente atraída para o sertão era em sua maior parte perversa, ‘ ociosa’ com aversão ao trabalho da agricultura’ , oriundos do litoral, entre eles muitos criminosos e fugitivos, que foram empregados nas fazendas de gado e nas guerras contra os índios do sertão.
Demonstravam natural inclinação para funções de combate e da lida com o gado, adaptando-se bem à vida rude do sertão. Documentos da época citavam que “constituía toda a sua maior felicidade merecer algum dia o nome de vaqueiro”.
As fazendas multiplicavam-se com facilidade porque os vaqueiros não ganhavam em dinheiro, mas em gado, em crias. De cada quatro animais nascidos, um era do vaqueiro.
Com o fim da guerra contra os holandeses, nos meados do século XVII, promoveu-se a distribuição das terras no Sertão “por grandes datas de sesmarias”, dadas aos seus ‘descobridores’ e/ou combatentes dos holandeses, que situaram fazendas de criação de gados, ou no cultivo das terras, fundando pequenos núcleos de população.
Margear os rios Capibaribe, Ipojuca, Pajeú , Moxotó, e São Francisco, eram as alternativas mais viáveis para se chegar aos sertões.
Nas margens desses rios se estabeleceram povoados, que posteriormente tornaram-se vilas e mais tarde, cidades.
Em meados do século XVIII, andavam pela  região da “cabeça do Pajeú”, os tropeiros ou Almocreves, profissionais que se especializaram no transporte de mercadorias pelas longas veredas do sertão. 

5. A PRIMEIRA LOCALIDADE DO PAJEÚ
Flores foi o primeiro núcleo populacional do sertão do Pajeú em 11/09/1783.
Porém, desde o fim do século XVII, já se encontravam indícios de ocupação branca na localidade.
Devido a uma lei de 1758, a distribuição de terras no sertão do Pajeú foi fragmentada em pequenas propriedades, devendo haver uma faixa de uma légua entre estas terras, a fim de usá-las para utilidade pública. 


Isto foi o início do latifúndio e da exploração no sertão do Pajeú, gerando o surgimento do cangaço, tendo Lampião como seu maior expoente.

O CANGAÇO E A CULTURA

No texto que se segue, tentaremos fazer uma breve abordagem que identifique a presença do cangaço na cultura popular do Nordeste brasileiro.

Na literatura: Nas capas dos primeiros folhetos de cordel não existiam desenhos, entretanto já se trabalhava o tema do cangaço. O exemplo é o folheto de Leandro Gomes de Barros com dois temas: A Ira e a Vida de Antônio Silvino e o Boi Mysterioso, publicado no Recife, sem datação, mas provavelmente editado entre o final do século 19 e o início do século 20, e o raríssimo folheto da autoria de Francisco das Chagas Baptista, intitulado A Vida de Antônio Silvino, também publicado no Recife, no ano de 1904. Para que não fiquemos atrelados apenas ao folheto de cordel como a única forma de expressão literária de “cunho popular” em que o tema cangaço é, exaustivamente, trabalhado – chegando a somar uma infinidade de títulos, o próprio Lampião escreveu suas estrofes em sextilhas sobre a influência da literatura de cordel –, convém salientar que existe um sistema de classificação concernente aos tipos ou gêneros na literatura “dita erudita” que intitula de literatura lampiônica a tudo que se escreveu sobre o cangaço e que, mesmo com tal título, não retrata, exclusivamente, a vida de Virgolino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, mas a uma série de fatos envolvendo a “forma de vida” dos cangaceiros.
Faz parte da literatura lampiônica livros de impressões pessoais, memórias, coletâneas de artigos publicados ou compilações de depoimentos recolhidos, além de monografias, dissertações e teses, estas últimas, apresentadas em faculdades nos cursos de história, antropologia, sociologia, direito, jornalismo etc. e que tem como “mote” uma investigação do cangaço sobre diversos ângulos científicos. Um fato curioso e que merece registro é que no Brasil já foram impressos mais de 1000 (mil) títulos sobre o cangaço. E a grande maioria desses títulos é publicada no Sudeste do país.

No Teatro: Certamente o cangaço é um dos temas mais fascinante para se trabalhar no teatro, pois reúne uma série de elementos que se ajustam às exigências teatrais. A quantidade de espetáculos em que o cangaço é utilizado como tema é vasta. Talvez seja porque o cangaço é movido por uma infinidade de conflitos pessoais e sociais, de vinganças atrevidas, de paixões intensas, de traições surpreendentes, de perseguições infindáveis, de eternas lutas do homem contra o Estado – personalizado nas volantes –, contra a aridez sertaneja, contra a falta de comida e de água, contra a elite latifundiária dominante etc., o que permite uma boa estruturação psicológica na construção dos objetivos e obstáculos tanto dos personagens quanto das cenas. Os figurinos (vestidos, blusas, saias, camisas, calças etc.) e os adereços (armas, facas, facões, bornais, cartucheiras, lenços, chapéus, anéis, precatas etc.) permitem várias possibilidades de recriações tanto na cor quanto na forma.
A estupenda incidência da luz do sol sobre os definhados ombros da secura da terra e da vegetação, confronta-se com a suavidade de um alcoviteiro ou mesmo candiêro de gái, que se contorce em coreografias sinuosas por dentro da noite fria e da vasta e extensa escuridão da madrugada. Eis aí mais um componente dualístico para o ambiente cenográfico que também é mormacento, acinzentado, rochoso e seco, em oposição profunda ao azul infinito do céu ou com a prata metálica em noite de luar, oferecendo inúmeras transposições de realidades cenográficas para a cena, visto que o sertão é rico em contrastes de cores, formas, texturas, materiais, densidades etc dentro de um marasmo sem fim. Outra imagem forte do sertão e do próprio cangaço está na vegetação cactácea: mandacarus, xiquexiques, coroas-de-frade etc. e a própria caatinga que é uma espécie de símbolo-mãe dicotômico tanto da resistência quanto da própria morte.
No tocante à linguagem e ao sotaque do ser sertanejo, podemos afirmar que são dois componentes marcantes e de suma importância à construção da palavra cênica. Mesmo que a primeira impressão aos ouvidos dos que moram em outras regiões do país possa parecer engraçado, jocoso, minutos depois, o ´modo de falar´ dos personagens são percebidos e respeitados como uma sonoridade própria, original, pulsante, outorgando ao espetáculo uma autêntica vida verbal de natureza puramente teatral. E a forma de construção das frases ainda pode ser em estrofes do cordel ou da cantoria.
A dramaturgia brasileira e em especial a nordestina, registrou, ao longo de sua história, uma infinidade de títulos alusivos ao cangaço. É fácil constatar que tal tema não morreu, pois se encontra inserido no pensamento dos novos dramaturgos que ainda utilizam o cangaço como tema central em algumas de suas peças. O cangaço também nos oferta o xaxado, o xote e o baião (forró): passos, gestos, marcações e ritmos originários do universo sertanejo, exibindo coreografias específicas na criação do espetáculo. A santíssima trindade do forró – sanfona, zabumba e triângulo – também está presente na sonoridade de um espetáculo em que a sonoplastia é executada ao vivo, o que certamente dá um ‘molho’ mais bem temperado à encenação, estabelecendo uma relação sonora, direta, com o povo. O somatório de ingredientes oriundos do cangaço permite a criação de uma realidade cênica própria, única, específica, enfim, original.

Na música: Se o Folheto de Cordel foi o maior divulgador impresso do cangaço, o mesmo se pode dizer da cantoria, no campo da música que durante muitos anos personalizou a cultura nordestina. É quase impossível não associar o Repente ao sertão. O som metálico da viola, as possantes vozes dos cantadores e suas pelejas cantadas no improviso, formam um duelo simbólico entre o bem e mal, Deus e o Diabo, vida e morte. Ao levarem informações aos povoados mais distantes através das suas cantorias, os cantadores de viola levavam, não apenas as notícias do momento, mas o fantástico, o maravilhoso, ou seja, o que possibilitasse que a imaginação trabalhasse fertilmente para aliviar as dores da vida calejada pela miséria. Certamente, o cangaço era um tema de destaque, pois possuía uma série de fatores que rapidamente permitia que se passasse do real para o imaginário. Era uma espécie de bálsamo para se entrar no realismo fantástico. As canções que abordavam o cangaço, até hoje ainda são facilmente ouvidas:

“Olê, mulé rendeira,
 Olê, mulé renda,
tu me ensina a fazer renda
 que eu te ensino a namora”
Ou:
“Acorda, Maria Bonita!
levanta vem fazer o café
que o dia já vem raiando
e a polícia já tá de pé”
Ou ainda:

“Assim é que cantava

os cabras de Lampião
dançando e xaxando
no forró do sertão”
                        
Os Ternos de Zabumba, mais conhecidos como Bandas de Pífanos, também estão vinculados ao cangaço. A gemedeira do ‘pife’ é única e está atrelada não somente ao homem da Zona da Mata ou do Agreste, mas, também, ao sertanejo. No sertão as Bandas de Pífanos, hoje bem mais raras de se encontrarem, são chamadas de Cabaçal e sempre que tocam, executam xote, xaxado e baião. O curioso é que os músicos se apresentam com chapéus semelhantes aos utilizados pelos cangaceiros o que também acontecia com Luiz Gonzaga, o rei do baião. Dentro do universo sonoro, não podemos esquecer o Parraxaxá, canto de insulto entoado pelos cangaceiros no intervalo das batalhas contra os soldados do governo (volantes) e esse canto também era conhecido como “Canto de Guerra”; os aboios e as várias formas sonoras de se chamar toda espécie de bicho: bode, pássaro, galinha etc.

Culinária: A alimentação do homem sertanejo do início do século 20 e aí se incluem os cangaceiros, para os dias atuais, pouco ou quase nada alterou, a base ainda é a mesma: feijão que pode ou não levar piqui, farinha de mandioca, arroz vermelho, rubacão (baião-de-dois), charque, carne de gado, muita carne de bode assada ou frita no óleo, buchada, rabada, legumes, hortaliças e o cuscuz-de-cabeça-amarrada preparado numa cuscuzeira de barro e que serve de acompanhamento desde o café matinal, passando pelo almoço, até o jantar. E o bolo de caco que é feito com massa de milho e um ovo?
No sertão, há uma relação muito forte com a caça. Herança indígena ou não, o sertanejo ainda caça seja por lazer ou por necessidade, e saboreia pacas, tejus, cobras, ribaçãs etc. e em suas longas caminhadas os cangaceiros também caçavam, certamente por uma necessidade, até porque não se tinha muita opção de frutas.
Nas feiras e mercados públicos das cidades do sertão pode se saborear o famoso mangunzá salgado – preparado com milho e feijão e que não tem nada de semelhante com o famoso mangunzá doce das capitais. Ainda se consome muita cachaça, muito queijo de coalho, muita manteiga de gado, mel, doce, leite etc. Ainda se prepara comida em panela de barro... Os cangaceiros costumavam caminhar dias e dias levando apenas um pedaço de rapadura para chupar ou roer e que aos poucos, através do açúcar, ia repondo as energias perdidas nas constantes fugas. Mas em suas paradas, certamente, um bode assado, uma macaxeira ou batata-doce cozidas, um arroz vermelho ou uma carne boiando no óleo e até mesmo uma ‘imbuzada’, eram bem apreciados. A gastronomia sertaneja é bem verdade que é feita de poucos temperos, mas saborear uma carne-de-sol ‘semeada’ com manteiga de gado (manteiga de garrafa), acompanhada de macaxeira frita, feijão de corda, farofa de jerimum ou cuscuz esfarelado e arroz, é para o cabra só parar de comer quando der uma dor bem forte. Em alguns lugares existe uma denominação para a sobremesa ‘doce com queijo’ que é chamada de Lampião e Maria Bonita. Essa cozinha está, inconscientemente, ligada ao cangaço, não somente pela forma primitiva de se preparar os alimentos, mas também, pela praticidade de se comer. O povo sertanejo não tem frescura, sobretudo, para comer... E sobre a valorização de todo esse patrimônio alimentar em que receitas atravessam séculos, lembremos Gilberto Freyre: “Uma cozinha em crise significa uma civilização inteira em perigo: o perigo de descaracterizar-se”.  

No artesanato: Ir a uma feira de artesanato significa se deparar com o cangaço. É muito comum na maioria das casas, escritórios e restaurantes nordestinos encontrar uma escultura de barro, uma xilogravura grande, chaveiros, tapeçarias, bordados, pinturas a óleo ou uma simples toalha de mesa ou um pano de cozinha que tenham uma alusão direta ao cangaço. Inconscientemente, estamos sempre voltados ao cangaço, seja pela sua afirmação ou por sua negação. As agências de viagem exploram muito bem a imagem do Nordeste brasileiro associando-a diretamente ao cangaço. Não é por acaso que o chapéu do cangaceiro, e não o do vaqueiro, junto ao mandacaru ou ao xiquexique, tornaram-se os símbolos turísticos mais utilizados para identificar o Nordeste.   

No cinema: O tema do cangaço no cinema é algo bem interessante. É curioso perceber, sem entrarmos em detalhes – que toda vez que um filme brasileiro fazia sucesso seu tema abordava o cangaço: O Cangaceiro, de Lima Barreto, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Lampião: O Rei do Cangaço, de Carlos Coimbra, O Baile Perfumado de Lírio Ferreira e Paulo Caldas etc., isto mostra que há uma identificação do grande público com o tema em questão e confirma que o filme para fazer sucesso necessariamente não precisava abordar o cangaço, porém todo filme que falava do cangaço fazia sucesso. 
É no mínimo curioso saber que Maria Bonita e Lampião são personagens obrigatórios na formação de uma quadrilha junina estilizada. Mesmo com a ‘estilização’ da quadrilha tradicional, em que não havia personagens do cangaço, em sua recriação passaram a existir. Como também é comum  encontrar no carnaval de Olinda muita gente fantasiada de cangaceiro.
Fatos evidenciam que há uma influência moura na formação cultural do povo sertanejo, sendo assim, é preciso constatar de que forma tal influência se deu, quais foram suas transformações ao longo dos anos, as características marcantes desta influência e suas estruturas como se deram no Nordeste brasileiro e em especial no cangaço. Não será de espantar se árabes e sertanejos tiverem muito em comum...
Dentre todos os aspectos de abrangência da cultura popular é o cangaço, sem dúvida, o tema mais vivenciado. Sendo assim, o cangaço é um bem imaterial do povo brasileiro. E antes de encerrar este módico preâmbulo, salientemos que o cangaço foi filho legítimo de um sistema social que ainda molesta os sertanejos. Estão aí as várias reivindicações populares, fruto do apodrecimento social do país, ou melhor, os seres – nós – não são mais frutos, mas fungos de um modelo que foi plantado desde o século 16 e que ao se deteriorar vem gerando vermes, bactérias e todo tipo de ser que nem força para morrer tem. Apodrecer vivo é a pior forma de fingir que se existe.
Neste contexto torna-se inevitável não atrelar o sertão ao cangaço e, por conseguinte, a Antônio Silvino que atuou fortemente na Zona da Mata, Jesuíno Brilhante, Curisco e ao mais famoso dentre todos eles, Lampião.
O estigma de que todo homem sertanejo é magro, desdentado, sujo, faminto, estúpido e assassino é paradoxal diante da valentia e da astúcia dos cangaceiros. Creio que no tocante, há uma identificação direta do povo que mesmo não conseguindo enfrentar o sistema cruel que lhe massacra a existência, projeta-se nos cangaceiros e através deles, resolve muitos dos seus problemas que, infelizmente, voltarão com o sol da manhã seguinte.

(Adriano Marcena é dramaturgo, membro da União Brasileira Escritores –PE e do Instituto Histórico de Jaboatão e pesquisador da cultura popular).