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domingo, 5 de janeiro de 2014

HISTÓRIAS DO CANGAÇO: RUMO AO MASSACRE DE ANGICO

Vamos, periodicamente, publicar histórias e causos, depoimentos e análises social, dentro do tema CANGAÇO  e LAMPIÃO, começando esta série – RUMO AO MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO – como vivia a família de VIRGOLINO, antes dele se tornar o famoso LAMPIÃO, com um preâmbulo contextualizando a estrutura da sociedade da época do cangaço.

CORONÉIS VERSUS CANGACEIROS

CORONEL – A designação de coronel veio do Império, quando os grandes proprietários de terras e outros bens – para solidificar seu poderio -  adquiriam comprando esse título da Guarda Nacional.
            A Guarda Nacional foi criada pela lei de 18 de agosto de 1831, pelo então padre Diogo Antonio Feijó, para garantir a ordem pública, defender a Constituição, a independência, a liberdade e a integridade nacional. Esta lei substituía as antigas Companhias de Ordenações e as Milícias de Guardas Municipais, cujas foram suprimidas em 20 de dezembro do mesmo ano.
            Os coronéis indicavam – por força de eleições profundamente suspeitas -  os prefeitos (intendentes) das cidades ou assumiam eles próprios, arregimentavam em suas propriedades dezenas de pistoleiros – jagunços – para eliminarem quem não lesse na mesma cartilha política ou discordasse de seus interesses. Quando um  coronel admitia um morador em sua propriedade não era necessário contratar-lhe os “serviços” do mesmo para ser jagunço ou pistoleiro. O fato de estar com tal coronel significava que era também um protetor armado desse mandatário. Essa atividade era inseparável da de morador ou agregado. Se houvesse mais de um coronel na cidade, mandava mais aquele que tinha mais pistoleiros, mais armas e maior disposição de brigar. No dia das eleições, seus cabos eleitorais entregavam a cédula em envelope fechado e preenchido aos eleitores e acompanhavam até o local das votações para ver se colocavam nas urnas. Era comum o voto do  defunto. Muitas vezes se votava em dois municípios : de manhã em um e a tarde em outro, para o “patrão” ajudar ao “compadre” correligionário. Tudo isto era o chamado “voto de cabresto”, que ainda existe, com  modificações, nos dias atuais, nos sertões.
            Alguns pesquisadores chegam a dizer que  Lampião fez pacto com coronéis. Isto é erro de leitura do contexto social da época. Na verdade alguns coronéis se encolheram, dobraram a espinha nos pactos, debaixo das ordens e poder de fogo do Rei do Cangaço.
            Segue os principais coronéis do tempo de Lampião – uns se dobraram e outros resistiram ao seu julgo:

De Pernambuco:

Coronel Cornélio Soares, chefe político de Villa Bella
Vila Bela  (atual Serra Talhada) – Antonio Pereira, padre José Kehrle, Antonio Alves do Exu e  Cornélio Soares. Floresta – Antonio Serafim de Souza Ferraz (Antonio Boiadeiro). Belém – Manuel Caribe (Né Caribe). Tacaratu, Jatobá e Espírito Santo – Ângelo Gomes de Lima (Anjo da Jia). Flores – José Medeiros de Siqueira Campos, que se revezava com o Major Saturnino Bezerra, este do distrito de Carnaíba. Triunfo – Deodato Monteiro, Lucas Donato. Afogados da Ingazeira – Elpídio Padilha. Custódia – Capitão da Ribeira de Contindiba e Ernesto Queiroz. Moxotó – Antonio Guilherme Dias Lins. Buíque – Antonio Cavalcanti. Pedra – Francisco de França (Chico de França). Rio Branco (Arcoverde) – Delmiro Freire. Águas Belas – Constantino Rodrigues Lins. Cabrobó – Antonio André e Epaminondas Gomes. Salgueiro -  Veremundo Soares. Belmonte – Luiz Gonzaga Ferras. Bom Conselho do Papacaça -  José Abílio de Albuquerque Ávila e Francisco Martins. Leopoldina (Parnamirim) – Antonio Angelino. Serrinha (Serrita) – Frâncico Figueira Sampaio (Chico Romão). Petrolina – João Barracão e  família Coelho.

Da Paraíba:

Princesa – José Pereira Lima. Conceição – Jaime Pinto Ramalho. Misericórdia (Itaporanga) – José Bruneto Ramalho e a família Nitão. Piancó – Felizardo e Tiburtino Leite. Cajazeiras – Famílias Rolim e Cartaxo. Alagoa do Monteiro – Augusto Santa Cruz.
De Alagoas:

Água Branca – Ulisses Luna (Ulisses da Cobra). Santana do Ipanema – Manuel Rodrigues. 
Mata Grande – Juca Ribeiro, família Malta. Pão de Açúcar – Joaquim Resende, Augusto Machado e Elísio Maia.

Do Ceará:

Missão Velha – Isaías Arruda. Porteiras – Raimundo Cardoso. Milagres – Domingos Furtado. Barbalha – Mousinho Cardoso. Aurora – Família dos Paulinos. Juazeiro – Padre Cícero e Floro Bartolomeu. Bravo – José Ignácio. Lavras da Mangabeira – Raimundo Cardoso. Jardim – Coronel Dudé. Brejo Santo - Antonio Teixeira Leite (Antonio da Piçarra).

De Sergipe :

Francisco Porfírio de Brito, João Ribeiro, Antonio de Carvalho (Antonio Caixeiro) e Eronildes de Carvalho.
Coronel Rodolfo Fernandes, chefe político de Mossoró

Da Bahia:

Glória – Petronilo de Alcântara Reis (Coronel Petros). Jeremoabo – Saturnino Nilo.

De Rio Grande do Norte :

Mossoró - Coronel Antonio Gurgel e Rodolfo Fernandes.

CANGACEIROS – Os cangaceiros viveram no nordeste por aproximadamente setenta anos. De 1870 até 1940, com seus ícones: José Gomes (Cabeleira), Lucas Evangelista (Lucas da Feira), Jesuíno Alves de Melo Calado (Jesuíno Brilhante), Adolfo Meia Noite, Manoel Batista de Moraes (Antonio Silvino), Sebastião Pereira da Silva (Sinhô Pereira), Virgolino Ferreira da Silva (Lampião) e Cristino Gomes da Silva Cleto (Corisco). Viviam em grupos, saqueando cidades, vilas e fazendas, enfrentando o poderio dos coronéis e fazendeiros, desafiando a polícia e todo aparato do Estado. A palavra vem de canga, peça de madeira que prende os bois ao carro. Os cangaceiros carregavam a arma sobre os ombros, lembrando uma canga. Quem se sentisse injustiçado, sempre procurava um meio de torna-se um cangaceiro. No cangaço o ganho era bastante superior ao de qualquer outra profissão estabelecida. Além do dinheiro e jóias, frutos dos saques, tinham fama, liberdade e respeito da população, admiração das mulheres, simpatia das pessoas e rompimento com a submissão dos donos do poder. No cangaço havia respostas urgentes para as necessidades materiais dos mais pobres.

Alguns tipos de cangaceiros:
O meio de vida: Que agiam por profissão.
O Vingança: Por ética.
O Refúgio: Por defesa.

O fim do cangaço é dado com a morte de Corisco, em 1940.
            Os mais destacados chefes de cangaceiros do tempo de Lampião que agiram com ele em diversos momentos,  foram: Virginio (Moderno), Sabino Gomes, Luiz Pedro, Antonio de Ingrácia, Cirilo de Ingrácia, Sinhô Pereira, Antonio Rosa, Cassemiro Honório, Antonio Matilde, Azulão, Gato (de Inacinha), Zé Sereno (José Ribeiro), Pancada, Chico Pereira, Curisco, Zé Baiano, Labareda (Ângelo Roque), Massilon Leite, Sabino das Abóboras, Jararaca (José Leite), Antonio Rosa, Balão, Meia Noite, Tubiba, Bom Deveras e Baliza.

VIRGOLINO

José Ferreira da Silva e Maria Sulena da Purificação residentes no Sítio Passagem das Pedras, em Vila Bella, Estado de Pernambuco, tiveram os seguintes filhos:
Antonio Ferreira
Livino Ferreira
Virgolino Ferreira
Virtuosa Ferreira
João Ferreira
Angélica Ferreira
Ezequiel Ferreira
Maria Ferreira
Anália Ferreira
O primeiro da lista - Antonio - era meio irmão dos demais.
           Dona Maria, antes de contrair matrimônio com José, morava nas proximidades da vila São Francisco e namorava um rapaz da família Nogueira, do qual engravidou. Mas o mesmo, metido a valentão e filho de gente rica, não quis casar-se, deixando a jovem em desolação.
            Um certo rapaz, das bandas de Triunfo, Pernambuco, trabalhava como tropeiro e tinha a vila como um dos pontos de parada pra descanso e recompor as forças da tropa de burros no seu roteiro quando se dirigia em suas andanças para o Ceará, Alagoas e Bahia, e há muito tempo  paquerava a mesma moça, mas nunca quis se chegar, pelo fato de vê-la comprometida.
            Porém, quando soube do acontecido, procurou-a e propôs casamento, assumindo a paternidade da gravidez.
            Recebeu de presente do sogro uma faixa de terra - o Sítio Passagem das Pedras - e tiveram o restante dos filhos e filhas.

Agora caros leitores
            Prestem-me bem atenção
            Para entender o relato
            Desta minha narração
            Concentrem bem a memória
Que vou contar a história
            Do famoso Lampião.
           
Nascido em Serra Talhada
            Numa fazenda rural
            Aprendeu desde menino
            O trabalho artesanal
            Com perfeição de ouro
            Moldando as peças de couro
            Em arreios de animal.
(Gilvan Santos)

Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada/PE, onde nasceu Virgolino. Residência de sua avó, dona acosa.
O terceiro filho - Virgolino - de acordo com sua certidão de nascimento, que se encontra no cartório de registro civil de Tauapiranga (São João do Barro Vermelho, distrito rural de Serra Talhada), no livro nº2, folha 8, nasceu no dia 07 de julho de 1897. E, segundo seu batistério, que se encontra na Diocese de Floresta, no livro 13, página 145, nº 463, consta que ele nasceu em 04 de junho de 1898.
            Mais duas filhas tiveram o casal:
            Maria do Socorro e
            Maria da Glória.
            Ambas tiveram morte prematura.
            Era costume, naquele tempo, quando as mulheres  estavam nos dias de darem a luz, ficarem nas casas dos pais.
Por isso, todos os rebentos nasceram na casa da avó materna, Dona Jacosa, que morava a umas trezentas braças de distância.
Somente com alguns dias, após o resguardo, que durava em torno de trinta dias, era que voltava pra casa,
            Virgolino, ao nascer, a avó, que a estas alturas tornara-se viúva, agradou-se tanto do neto, que ficou com ele para lhe fazer companhia.Portanto, nasceu e se criou na casa da avó.
            Segundo os moradores antigos daquelas bandas, a parteira que segurou Virgolino ao nascer e, ao que tudo indica, de todos os rebentos da casa, foi uma senhora chamada Antonia Tonico, moradora da fazenda Situação.
            Em 1905 fez a primeira comunhão na vila São Francisco e em 1912 foi crismado em Floresta.
            Como naquela época não havia escolas na região e Virgolino era o mais interessado dos irmãos pra aprender ler e escrever, estudou alguns meses com os professores Domingos Soriano Lopes e Justino Neneu. O primeiro era  parente da família pelo lado materno.
            A família vivia da agricultura, do criatório de bode e da almocrevia.
            Isto mesmo, com dezesseis anos de idade possuía uma frota de burros e partiu para a almocrevia. Os burros são animais melhores para essa função porque preferem água limpa e comem pouca ração. Vantagem muito boa para quem vive nessa profissão com o pé na estrada.
            Saía com a burrama do Sítio Passagem das Pedras para Rio Branco onde comprava, vindos do Recife ou do sul do estado, caixas de gás, caixas de bebidas Gato Preto, Old Tom, alcobaça, açúcar refinado, arroz branco, roupas e tecidos, bolachas marca “sertaneja” de Pesqueira - PE. e outras novidades em bugigangas. Tinha as pessoas certas para entregar esses produtos. No caso de Vila Bella um deles era Cornélio Soares quem recebia para comercializar. Entregava também para outras cidades como Belmonte, Ouricuri, Triunfo, Cabrobó, Petrolina e até outros estados como Alagoas, Paraíba e Ceará. Foi nessas viagens que começou a conhecer palmo a palmo, ponto a ponto do Nordeste, que lhe viria ser útil na futura vida do cangaço.
            Ao mesmo tempo, nos dias de feira das cidades, ele  vendia produtos fabricados por ele mesmo. Em Vila Bella era muito conhecido quando vinha com seus artefatos de couros confeccionados por suas próprias mãos, com perfeito acabamento e detalhes artísticos: alforge, chibata, colete, gibão, luvas, arreios, cartucheiras, selas, etc. Instalava sua banca ou forrava o chão com esteira ao lado da Igreja do Rosário, onde funcionava a feira livre nos tempos idos.

Também foi grande vaqueiro
            Ágil e inteligente
            Pegava boi na caatinga
            Bravo sem nunca vê gente
            Logo que o boi se espantava
            Que o tropé começava
            Ele partia na frente.

            Trabalhou como almocreve
            Viajando noite e dia
            Com seu pai e seus irmãos
            Levando mercadoria
            Andavam de feira em feira
            Por isso é que os Ferreira
            Todo sertão conhecia.
            (Gilvan Santos)
           
Virgolino tocava sanfona nas festas da redondeza, escrevia poesias e no repente desafiava os melhores repentistas da  ribeira, confeccionava artefatos em couro e madeira, corria vaquejada e pega de boi no mato. 
            Quando se tratava de trabalhar, era um verdadeiro furacão em tudo que fazia: na roça, na compra e venda de mercadorias que transportava em lombo de burro.
            Os títulos eleitorais de Virgolino, Antônio e Livino foram tirados no ano de 1915. apesar de não terem idade, Metódio Godoy foi quem articulou tudo para garantir esses votos. Votaram esse ano no partido borbista, que tinha a frente o oposicionista candidato a governo do estado Manoel Borba, que Mário Lira e os Godoy tinham a predileção. Os Carvalhos estavam de cima e apoiavam o candidato a reeleição para governador Dantas Barreto, contando com todo apoio dos Nogueiras e Saturnino.
            Depois, no ano seguinte, 1916, sufragaram os Ferreiras o voto ao próprio Mário Lira - Mário Alves Pereira Lira, filho natural do Recife, contraindo matrimônio com uma moça da família Carvalho, veio residir em Vila Bella. Tornou-se um político de forte influência e foi eleito prefeito para a gestão 1916/20.
            Ao que tudo indica, quando os Ferreira moravam em Poço Negro, cidade de Floresta - PE., foram correligionários de Idelfonso Ferraz.
            Os Ferreiras tinham uma excelente relação de amizade com Cornélio Soares. Inclusive, um parente de José Ferreira, chamado Cândido Ferreira, costumava se hospedar na casa desse chefe político. Quando Cândido começou a ser ameaçado pelos inimigos de Lampião, que teve de vir embora de Nazaré, foi este acolhido na fazenda Caxixola, localizada no outro lado do Rio Pajeu, de propriedade do coronel Cornélio Soares. Lá morou durante toda sua vida, na sua proteção.

Os Ferreira eram pobres
            Para aquela região
            Suas terras eram poucas
            E de pouca criação
            Mas como eram tropeiros
            Ganhavam algum dinheiro
            Nas viagens do sertão.
            (Gilvan Santos)

Família Ferreira, em 1926, no Juazeiro do Norte/CE.
Os Ferreiras comiam e vestiam, se divertiam e se solidarizavam com os amigos com o produto do suor dos seus rostos.
            Uma típica família sertaneja...


(Extraído do livro LAMPIÃO. NEM HERÓI NEM BANDIDO. A HISTÓRIA, de Anildomá Willans de Souza)



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