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domingo, 9 de fevereiro de 2014

LAMPIÃO: HOJE AQUI NINGUÉM DANÇA

Uma paixão que o LAMPIÃO teve na adolescência,  e quando estava no cangaço não escondia esse sentimento. Hoje, em HISTÓRIAS DO CANGAÇO – RUMO AO MASSACRE DE ANGICO  vamos conhecer uma passagem da vida do Rei do Cangaço, quando o mesmo chegou em Nazaré para tentar impedir o casamento de sua amada.
            
Eu era um moleque com uns dez ou treze anos quando via dona Licor na sua casa, na rua Coronel Cornélio Soares,  próximo à residência dos meus pais, pertinho do rio Pajeu. Ela nasceu no distrito de Nazaré, mas em 1936 veio morar em Serra Talhada.  Seus netos e netas eram meus parceiros de escola, festas, teatro e farra.
         “Ela foi namorada de Lampião!”
         Era o que ouvíamos sobre aquela senhora simpática e agradável.
De conversa em conversa, entre uma especulação e outra, de cochicho em cochicho, fui juntando os pedaços dessa história e com a ajuda de dona Neusa, filha de dona Licor,  conseguir redigir esse capítulo.
Ainda tava escuro quando o padre José Kehrle e o sacristão Zé Rufino saíram de Vila Bella montados em bons cavalos, com destino a Nazaré, onde era dia de feira e estava marcado o casamento de Maria Licor Ferreira de Lima com Enoque Menezes.
A mãe da noiva, Joana Lopes, conhecida por Joaninha ou Nanã, era irmã de Maria Sulena, mãe de Lampião. Portanto, a nubente era prima dos irmãos Ferreiras.

Ainda hoje dizem que Lampião não aceitava esse enlace por que ele era apaixonado por Licor. Era uma paixão antiga, desde a adolescência.
Passava um pouquinho das duas horas da tarde quando o padre entrou no povoado, todo empoeirado, chapelão na cabeça pra proteger sua pele avermelhada, com o fiel sacristão, sempre caladão, ao lado. Um monte de gente veio recebê-los, pedindo a benção, passando e recebendo as últimas novidades.
Nesse momento Lampião estava com Raimundo do Pico tocando um fole de oito baixos debaixo de uma latada de feira no meio da rua, exibindo aos feirantes presentes quinze chicotes feitos com os fios do telégrafo, que o mesmo havia cortado antes da entrada na vila, dizendo que cada um daqueles seria para dar uma surra em quinze nazarenos, deixando claro ser em Gomes, e nos demais chefes das famílias Flor e Jurubeba. Os demais cangaceiros – num total de dezesseis – estavam, ao som da sanfona tocada pelo chefe, dançando xaxado e outros espalhados nas bodegas tomando bicada de cachaça ou comendo breboto nas bancas, quando viram o padre, largaram tudo e foram também dar as boas vindas ao amigo, conselheiro e confidente.
         
Todas as vezes que o sacerdote vinha a Nazaré ficava hospedado na casa de Antonio Gomes Jurubeba, o velho Gomes. Desta vez não foi como antes, ele retirou-se e deixou a residência fechada. Estava em sua fazenda arquitetando um plano pra matar Lampião. O padre hospedou-se na casa de um parente da noiva, que era também da mesma família de Lampião, Cândido Ferreira, onde foi servido um almoço para o reverendo e os cangaceiros. Enquanto almoçavam chegou um irmão da noiva e dirigiu-se a Lampião, dizendo-lhe:
 “- Lampião, você sabe que hoje é dia de festa. Minha irmã, vai se casar e não fica bem você com esse monte de gente armada arrudiando na rua.”
Antonio Ferreira, do local que estava sentado, disse numa falsa calma:
“ – Quando é pra brigar eu brigo. Só que não vim pra isso. Mas agora nem numa festa podemos mais ficar? Viemos em paz!  Se é assim como você diz, daqui só saio deixando os urubus comendo um...”

Livino deu de garra dum punhal, cravou em cima da mesa e num tom  intimidante, deu seu recado:
“ – Tenho contas pra acertar com um magote de gente safada daqui, e logo um primo meu que vem com conversa pra arredar. De jeito nenhum.!”
João Gavião que já estava um pouco bêbado, eufórico, com o álcool subindo a cabeça, pronunciou  elevando a voz:
“- Eu vim pra Nazaré me divertir na festa do casamento. Mas se é pra gente sair daqui por que somos bandido, vai ficar bem pouquinha gente.”
À medida que cada um na mesa falava, a situação ia ficando mais tensa. Foi aí que o padre, já todo vermelho, os olhos azuis arregalados, enxugando o suor da testa longa com um lenço, interviu interrompendo as opiniões:
 “- Calma, gente, a festa pode ser pra todo mundo! É só uma questão de entendimento!”
Lampião levantou-se calmamente, dirigiu-se ao primo, esticou o dedo em seu nariz, com os dentes cerrados, olhar fixo, transpirando raiva pelos poros, falou:
“- Tá decidido. Já que Licor e Enoque se casam, num tenho mais o que fazer! O Padre faz como for certo. Mas aqui em Nazaré, hoje, ninguém dança!”.  Era quatro horas da tarde, do dia 31 de julho de 1923, quando Enoque e Licor entraram na capela de Nossa Senhora da Saúde para se casarem, sob a benção do Padre José Kehrle.

Os cangaceiros participaram do jantar e depois foram para a fazenda de Antonio do Campo Alegre, próximo ao povoado, onde passaram a noite na casa de Sebastião Eusébio.

Enquanto tudo ia aparentemente bem, na fazenda de Gomes, se reunia David Jurubeba e João Domingos, Manoel e Luiz Soriano, Manoel e Euclides Flor, Pedro Gomes e outros nazarenos das confianças desses com a intenção de montarem um meio para eliminarem os cangaceiros. A tática era se espalharem pelas ruas, cada um ficar ao lado de um deles, e ao sinal combinado, todos agiriam simultaneamente, esfaqueando o inimigo que estivesse mais próximo. João Flor foi quem tirou essa idéia “doida” da cabeça dos amigos, convencendo-os que a mínima falha poderia morrer muita gente inocente.
         No Campo Alegre os cangaceiros faziam a festa com alguns rapazes e moças da redondeza. Vez em quando saia um cangaceiro e ia pela escuridão da noite verificar se realmente não estavam dançando em Nazaré.
O dia amanheceu. Era domingo, dia 1º de agosto, às oito horas da manhã, aconteceu a missa, com a igreja lotada por fiéis, inclusive os cangaceiros, desarmados, assistiam a celebração. Os noivos estavam posando para as lentes de um fotógrafo.

Nove horas - Lampião se despedia do padre na porta da igreja quando avistaram a volante comandada pelo sargento Sinhorzinho Alencar (José Alencar Pires de Carvalho), com mais de trinta homens, aproximando-se do povoado pelo riacho Carqueja.
         “- É um monte de macaco!”, gritou Livino.
Os cangaceiros pegaram as armas que estavam enfileiradas no oitão da igreja, sob o comando calmo e sereno de Lampião, porém com muita agilidade, todos formaram um cinturão de defesa, nas casas, calçadas e árvores.
         Livino ficou no meio da rua com um bornal cheio de bala na mão, sacudindo e estalando os lábios pra soldadesca, a modo de chamar os burros pra comer milho.
         Começou o tiroteio.
Caiu sem vida no principio da pipoqueira o soldado Zé Pretinho.
         Os estrondos dos mosquetões eram ensurdecedor.
         As pessoas fecharam as casas e no meio da rua ficou apenas os cangaceiros e macacos trocando tiros e insultos, com xingamento de todo lado.
         Um grupo de cangaceiros tanto atirava como cantava o hino de guerra “Mulher Rendeira” animando os companheiros.
         Logo nos primeiros tiros, os nazarenos, liderados por Gomes e João Flor, tomaram chegada e juntaram-se a policia, formando um bolsão de ataque.
         O padre e os fiéis ficaram o tempo todo deitados dentro da igreja.
O  sacristão, que neste momento já estava montado em seu cavalo, correu num pique só, até a fazenda São Miguel, pouco mais de trinta quilômetros, num rojão de impressionar.
         Era meio-dia quando os cangaceiros abandonaram o campo de luta, escapando pelos fundos da casa de Cândido Ferreira.
         Assim que saíram da rua, entra, em fila indiana, mais uma força volante comandada pelo sargento João Francisco, o popular  João Fininho, de Vila Bella, enviada pelo tenente-coronel João Nunes. Vinham acompanhando essa volante alguns homens da cabroeira de Zé Saturnino.
Agora, com os cangaceiros longe, todos os policiais dão inicio a uma sessão de abuso de autoridade e começam a atirar nas paredes e portas das casas, chutar e bater nas pessoas inocentes, causando mais pânico  na população.

O padre saiu de dentro da igreja e repreendeu com veemência o comportamento da policia, que deveria estar protegendo e oferecendo segurança. Sem temor, reclamava com autoridade:
         “- É por isso que essa gente humilde tem mais respeito aos cangaceiros do que a policia!”
Essa foi  a última vez que Lampião entrou em Nazaré.

Licor nasceu no ano de 1894 e faleceu no dia 22 de setembro de 1976.
Enoque nasceu no dia 4 de abril de 1894 e faleceu no dia 29 de setembro de 1975, em Serra Talhada.

Depois dessa investida dos cangaceiros à Nazaré,  foi criada a famosa volante dos NAZARENOS, que passou a perseguir  o Comandante das Caatingas pelos confins do sertão até o final de sua vida.


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