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segunda-feira, 7 de julho de 2014

LAMPIÃO: 117 ANOS DEPOIS, UMA LENDA QUE CONTINUA VIVA E CADA VEZ MAIS PRESENTE NA IDENTIDADE CULTURAL NORDESTINA.


VIRGOLINO: HISTÓRIA

           
       Hoje, 7 de julho, se LAMPIÃO vivo fosse, estaria completando 116 anos. Conforme sua certidão de nascimento, nasceu nesta data, aqui em Villa Bella. O texto que segue é do livro LAMPIÃO. NEM HERÓI NEM BANDIDO. A HISTÓRIA, de Anildomá Willans de Souza.
José Ferreira da Silva e Maria Sulena da Purificação residentes no Sítio Passagem das Pedras, em Vila Bella, Estado de Pernambuco, tiveram os seguintes filhos:
1.   Antonio Ferreira
2.   Livino Ferreira
3.   Virgolino Ferreira
4.   Virtuosa Ferreira
5.   João Ferreira
6.   Angélica Ferreira
7.   Ezequiel Ferreira
8.   Maria Ferreira
9.   Anália Ferreira

O primeiro da lista - Antonio - era meio irmão dos demais.

           Dona Maria, antes de contrair matrimônio com José, morava nas proximidades da vila São Francisco e namorava um rapaz da família Nogueira, do qual engravidou. Mas o mesmo, metido a valentão e filho de gente rica, não quis casar-se, deixando a jovem em desolação.
            Um certo rapaz, das bandas de Triunfo, Pernambuco, trabalhava como tropeiro e tinha a vila como um dos pontos de parada pra descanso e recompor as forças da tropa de burros no seu roteiro quando se dirigia em suas andanças para o Ceará, Alagoas e Bahia, e há muito tempo  paquerava a mesma moça, mas nunca quis se chegar, pelo fato de vê-la comprometida.
            Porém, quando soube do acontecido, procurou-a e propôs casamento, assumindo a paternidade da gravidez.
            Recebeu de presente do sogro uma faixa de terra - o Sítio Passagem das Pedras - e tiveram o restante dos filhos e filhas.

Agora caros leitores
            Prestem-me bem atenção
            Para entender o relato
            Desta minha narração
            Concentrem bem a memória
Que vou contar a história
            Do famoso Lampião.
           
Nascido em Serra Talhada
            Numa fazenda rural
            Aprendeu desde menino
            O trabalho artesanal
            Com perfeição de ouro
            Moldando as peças de couro
            Em arreios de animal.
(Gilvan Santos)

O terceiro filho - Virgolino - de acordo com sua certidão de nascimento, que se encontra no cartório de registro civil de Tauapiranga (São João do Barro Vermelho, distrito rural deSerra Talhada), no livro nº2, folha 8, nasceu no dia 07 de julho de 1897. E, segundo seu batistério, que se encontra na Diocese de Floresta, no livro 13, página 145, nº 463, consta que ele nasceu em 04 de junho de 1898.
            Mais duas filhas tiveram o casal:
            Maria do Socorro e
            Maria da Glória.
            Ambas tiveram morte prematura.
            Era costume, naquele tempo, quando as mulheres  estavam nos dias de darem a luz, ficarem nas casas dos pais.
Por isso, todos os rebentos nasceram na casa da avó materna, Dona Jacosa, que morava a umas trezentas braças de distância.
Somente com alguns dias, após o resguardo, que durava em torno de trinta dias, era que voltava pra casa,
            Virgolino, ao nascer, a avó, que a estas alturas tornara-se viúva, agradou-se tanto do neto, que ficou com ele para lhe fazer companhia. Portanto, nasceu e se criou na casa da avó.
            Segundo os moradores antigos daquelas bandas, a parteira que segurou Virgolino ao nascer e, ao que tudo indica, de todos os rebentos da casa, foi uma senhora chamada Antonia Tonico, moradora da fazenda Situação.
            Em 1905 fez a primeira comunhão na vila São Francisco e em 1912 foi crismado em Floresta.
            Como naquela época não havia escolas na região e Virgolino era o mais interessado dos irmãos pra aprender ler e escrever, estudou alguns meses com os professores Domingos Soriano Lopes e Justino Neneu. O primeiro era  parente da família pelo lado materno.
            A família vivia da agricultura, do criatório de bode e da almocrevia.
            Isto mesmo, com dezesseis anos de idade possuía uma frota de burros e partiu para a almocrevia. Os burros são animais melhores para essa função porque preferem água limpa e comem pouca ração. Vantagem muito boa para quem vive nessa profissão com o pé na estrada.
            Saía com a burrama do Sítio Passagem das Pedras para Rio Branco onde comprava, vindos do Recife ou do sul do estado, caixas de gás, caixas de bebidas Gato Preto, Old Tom, alcobaça, açúcar refinado, arroz branco, roupas e tecidos, bolachas marca “sertaneja” de Pesqueira - PE. e outras novidades em bugigangas. Tinha as pessoas certas para entregar esses produtos. No caso de Vila Bella um deles era Cornélio Soares quem recebia para comercializar. Entregava também para outras cidades como Belmonte, Ouricuri, Triunfo, Cabrobó, Petrolina e até outros estados como Alagoas, Paraíba e Ceará. Foi nessas viagens que começou a conhecer palmo a palmo, ponto a ponto do Nordeste, que lhe viria ser útil na futura vida do cangaço.
            Ao mesmo tempo, nos dias de feira das cidades, ele  vendia produtos fabricados por ele mesmo. Em Vila Bella era muito conhecido quando vinha com seus artefatos de couros confeccionados por suas próprias mãos, com perfeito acabamento e detalhes artísticos: alforge, chibata, colete, gibão, luvas, arreios, cartucheiras, selas, etc. Instalava sua banca ou forrava o chão com esteira ao lado da Igreja do Rosário, onde funcionava a feira livre nos tempos idos.
           
Também foi grande vaqueiro
            Ágil e inteligente
            Pegava boi na caatinga
            Bravo sem nunca vê gente
            Logo que o boi se espantava
            Que o tropé começava
            Ele partia na frente.

            Trabalhou como almocreve
            Viajando noite e dia
            Com seu pai e seus irmãos
            Levando mercadoria
            Andavam de feira em feira
            Por isso é que os Ferreira
            Todo sertão conhecia.
            (Gilvan Santos)
           
Virgolino tocava sanfona nas festas da redondeza, escrevia poesias e no repente desafiava os melhores repentistas da  ribeira, confeccionava artefatos em couro e madeira, corria vaquejada e pega de boi no mato. 
            Quando se tratava de trabalhar, era um verdadeiro furacão em tudo que fazia: na roça, na compra e venda de mercadorias que transportava em lombo de burro.
            Os títulos eleitorais de Virgolino, Antônio e Livino foram tirados no ano de 1915. Apesar de não terem idade, Metódio Godoy foi quem articulou tudo para garantir esses votos. Votaram esse ano no partido borbista, que tinha a frente o oposicionista candidato a governo do estado Manoel Borba, que Mário Lira e os Godoy tinham a predileção. Os Carvalhos estavam de cima e apoiavam o candidato a reeleição para governador Dantas Barreto, contando com todo apoio dos Nogueiras e Saturnino.
            Depois, no ano seguinte, 1916, sufragaram os Ferreiras o voto ao próprio Mário Lira - Mário Alves Pereira Lira, filho natural do Recife, contraindo matrimônio com uma moça da família Carvalho, veio residir em Vila Bella. Tornou-se um político de forte influência e foi eleito prefeito para a gestão 1916/20.
            Ao que tudo indica, quando os Ferreira moravam em Poço Negro, cidade de Floresta - PE., foram correligionários de Idelfonso Ferraz.
            Os Ferreiras tinham uma excelente relação de amizade com Cornélio Soares. Inclusive, um parente de José Ferreira, chamado Cândido Ferreira, costumava se hospedar na casa desse chefe político. Quando Cândido começou a ser ameaçado pelos inimigos de Lampião, que teve de vir embora de Nazaré, foi este acolhido na fazenda Caxixola, localizada no outro lado do Rio Pajeu, de propriedade do coronel Cornélio Soares. Lá morou durante toda sua vida, na sua proteção.
           
Os Ferreira eram pobres
            Para aquela região
            Suas terras eram poucas
            E de pouca criação
            Mas como eram tropeiros
            Ganhavam algum dinheiro
            Nas viagens do sertão.
            (Gilvan Santos)

Os Ferreiras comiam e vestiam, se divertiam e se solidarizavam com os amigos com o produto do suor dos seus rostos.
            Uma típica família sertaneja...
         
         EM TEMPO: No período de 23 a 27 de julho, será apresentado ao ar livre o espetáculo teatral O MASSACRE DE ANGICO – A MORTE DE LAMPIÃO, na ESTAÇÃO DO FORRÓ, envolvendo mais de oitenta atores e atrizes, com texto de Anildomá Willans de Souza e direção de José Pimentel. Entrada FRANCA.

VIRGOLINO – COMENTÁRIO.


Celebrar seus mitos, comemorar datas, festejar fatos, é comum aos povos que tem cultura e que valorizam sua história. Virgolino Ferreira da Silva, que entrou pra história com a alcunha de LAMPIÃO, nasceu no dia 07 de julho de 1897, no Sítio Passagem das Pedras, zona rural do município de Serra Talhada. Era o terceiro filho de uma família de oito irmãos e logo cedo ingressou na profissão de almocreve. Entrou para o Cangaço com a intenção de vingar a morte de seu pai, José Ferreira, assassinado pela polícia alagoana chefiada pelo sargento José Lucena. Morreu no dia 28 de julho de 1938, na Fazenda Angico, estado de Sergipe, junto com Maria Bonita e mais nove companheiros.
Homem que dividiu a história do sertão brasileiro antes e depois de sua passagem pela terra, Lampião é amado e odiado. Para uns, herói, para outros, bandido. A verdade é que qualquer brasileiro tem uma opinião a respeito do famoso cangaceiro pernambucano. Sua história se confunde com a própria história do nordeste brasileiro. Observando bem, poucos são os personagens históricos que saíram do seio do povo, que viveu humildemente, mas que desafiou todas as instâncias de poder. Foi assassinado, mas seu nome continua vivo, cantado nos cordéis, no cinema, no teatro, na gastronomia, na dança, no mundo inteiro.
         Os caminhos da história sempre surpreendem e possibilitam que personagens como Lampião, Padre Cícero, Frei Damião, Antônio Conselheiro, Zumbi dos Palmares (entre tantos outros) sejam objeto de estudo e de controvérsias. Fato é que, mesmo 117 anos após seu nascimento e 76 anos após sua morte, Lampião ainda desperta sentimentos extremos de admiração e ódio. Afinal de contas, trata-se de um personagem real e que foi construído rodeado de valores que envaidecem o nordestino: coragem, valentia, brabeza de cabra macho, obstinação, esperteza, etc.
         Sempre que for citado, Lampião será sempre centro de contradições e de fervorosas discussões, o que de certa forma contribui para perpetuar sua condição mitológica e despertar tanto fascínio nas gerações atuais e futuras.
         Polêmicas a parte, seu nome e sua imagem continuarão influenciando a literatura, o teatro, a música, a culinária, o artesanato, o cinema, pois dentre todos os aspectos de abrangência da cultura popular é Lampião, sem dúvida, o personagem mais vivenciado. Sendo assim, não é estranho dizer que Lampião é um bem imaterial do povo brasileiro e que precisa ser reconhecido como tal. Salientamos que Lampião, antes de qualquer coisa, é um personagem histórico. Não é lenda. Não é folclore. É história. E nós não podemos negar a história. A história a gente não oculta.

Serra Talhada/PE, 07 de julho de 2014.
ANILDOMÁ WILLANS DE SOUZA
(Pesquisador do Cangaço – Secretário de Cultura de Serra Talhada/PE).


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