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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

CONQUISTA: BETH DE OXUM VAI RECEBER A ORDEM DO MÉRITO CULTURAL 2015

Presença firme e inspiradora nas muitas frentes de luta pela cultura popular, em defesa da liberdade dos cultos e tradições de matrizes africanas e também por mais democracia e pluralidade na comunicação, a importância da pernambucana Beth de Oxum para a cultura brasileira será finalmente registrada na próxima segunda-feira, 9 de novembro. A coquista será uma das agraciadas com a Ordem do Mérito Cultural 2015 e, juntamente com a Sociedade Musical Curica, que também é patrimônio vivo do estado, vai representar a força da cultura pernambucana na premiação deste ano.
Toni Braga/Secult-pe
Toni Braga/Secult-pe
Beth de Oxum recebeu a equipe do Cultura.PE em Olinda.
O reconhecimento nacional é também fruto do decisivo papel que Beth cumpre no bairro de Guadalupe, comunidade periférica de Olinda, onde atua diariamente em questões relacionadas a conflitos de classe, etnicidade, gênero, inovações tecnológicas, consumo, identidade, maternidade e, claro, cultura e arte. “Eu acho importante pela luta de afirmar principalmente os brinquedos de rua. As brincadeiras nascem nos terreiros mas se materializam nas ruas . O prêmio favorece na perspectiva de firmar, legitimar essa cultura e articular em rede”, avalia a coquista.
Ialorixá do Terreiro Ilê Axé Oxum Karê, coordenadora do Ponto de Cultura Coco de Umbigada – que há 20 anos consecutivos realiza a Sambada de Coco do Guadalupe – Beth vai receber mais um prêmio na próxima semana. Desta vez, das mãos da chefe maior da nação. A Ordem do Mérito cultural 2015, instituída por Lei federal em 1991, condecora personalidades, órgãos e entidades públicas e privadas nacionais e estrangeiras com reconhecida contribuição à cultura brasileira. Beth foi indicada à Ordem do Mérito por uma série de entidades e pessoas públicas, entre elas, a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, a Deputada Federal Jandira Feghali, a Federação dos Cocos de Roda de Pernambuco, e o Colegiado de Culturas Afro-brasileiras do Conselho Nacional de Política Cultura. A premiação acontece no Palácio do Planalto, em Brasília.
Premiações já fazem parte da trajetória de Beth, nas mais diversas frentes em que atua, dentro da cultura. Um dia após receber a comanda da Ordem do Mérito Cultural, das mãos da presidente Dilma Rousseff, ainda em Brasília, na terça-feira (10), Beth estará na final do Prêmio Fundação do Banco do Brasil de Tecnologia Social, onde é finalista, através do Coco de Umbigada, na categoria “Juventude”, com o projeto do game “Contos de Ifá”. O produto foi desenvolvido por alunos de uma oficina promovida pelo Coco de Umbigada, por meio de um outro edital, desta vez, incentivado pela Fundação Palmares.  “Eu busco coisas com todo mundo. Tenho vários parceiros. Esse foi um edital aberto e conseguimos juntar 150 jovens. Oferecemos curso de produção cultural, web designer, desenho de produtor gráficos, operação de áudio e percussão popular”, conta. O game premiado (pode ser acessado através do endereço www.contosdeifa.com) pretende, através de estratégias comuns a jogos eletrônicos, descriminar crenças que impedem a compreensão do culto aos orixás, principalmente entre os mais jovens.
Reconhecimento
O financiamento de projetos através de prêmios acompanha a trajetória de Beth desde que seu Coco de Umbigada – já atuante na vida social e cultural do bairro de Guadalupe, transformou-se em Ponto de Cultura, em 2004, no primeiro edital deste programa lançado pelo Ministério da Cultura. “A gente já tinha muito conteúdo para produzir. Recebemos um dos kits que foram oferecidos pelo MinC, com quatro computadores. Montamos nosso primeiro telecentro, e a comunidade passou a ter acesso à internet”. Depois do acesso, veio o conhecimento. E os meninos passaram a produzir diversos conteúdos.

Beth não deixou as demais oportunidades escaparem. E foi assim que venceu o Prêmio Pontos de Mídias Livres, também do Ministério da Cultura. Através dele, vieram os primeiros equipamentos da rádio Amnésia, uma experiência coletiva que começou itinerante (chegou a ser instalada em algumas comunidades urbanas e rurais do Nordeste) e, quando chegou ao Ponto de Cultura Coco de Umbigada, não saiu mais de lá. Beth conta que esta apropriação da rádio levou ao empoderamento do coletivo. O prêmio consolidou o trabalho da rádio, com aquisição de equipamentos próprios e novas atividades de formação, utilizando recursos da Funarte obtidos através do prêmio “Residências artísticas – interações estéticas em pontos de cultura”, com o projeto “Coco-rádio-arte”. “Nesta época, percorremos cinco pontos de cultura, dando oficinas de gravação de áudio e vídeo, nas cinco regiões do país”, conta Beth.
Outro prêmio importante que veio fortalecer e dar ainda mais evidência ao trabalho da Umbigada foi o que permitiu que mestres do coco – Dona Selma, Aurinha, Zeca do Rolete, Pombo Roxo, entre outros – fossem vistos como mestres griôs. Eles recebiam uma bolsa para dar aulas na escola. “Passamos (o ano de ) 2009 inteiro indo às escolas e depois trouxemos as escolas para cá, para receber os ensinamentos que só se aprende nos terreiros das culturas populares. A ideia foi aproximar os saberes científicos e populares”, diz Beth.
Costa Neto
Costa Neto
A coquista em apresentação do Coco de Umbigada na Torre Malakoff (2013).
Por isso que as apresentações do Coco de Umbigada, as atividades da rádio Amnésia, as oficinas que realiza, e todos os encontros – seja de música tradição, seja de religião africana – têm como base o sentido de busca por identidade, pertencimento, empoderamento. “No início nos ancoramos na nossa fé, em Oxum, em Orixalá, depois nas articulações em rede, nos coletivos, nos arranjos produtivos locais que estamos desenvolvendo. Se a gente fosse depender apenas dos editais a gente não teria mantido a sambada por vinte anos. Fazemos a dimensão da troca como moeda social”, ensina mãe Beth.
Trajetória
Mãe Beth de Oxum é sacerdotisa de matriz africana, Iyalorixá , cantadora de coco, produtora há 20 anos da Sambada de Coco do Guadalupe, mãe de muitos filhos, presidente da Federação dos Coco de Roda de Pernambuco; conselheira do segmento de Costumes e Saberes do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Olinda; coordenadora pedagógica do projeto Brincadeiras de Terreiros, que envolve diversos terreiros de matriz africana da Região Metropolitana do Recife e Mata Norte de Pernambuco. Entre tantos projetos dos quais também faz parte, é coordenadora do NUFAC OLINDA – Núcleo de Formação de Agentes de Cultura da Juventude Negra, um projeto em rede, presente em 17 estados. Integra o Coletivo de Comunicação e Hiper Mídias Nordeste Livre e o Coletivo da Rádio Amnésia – FM 89,5; coordena o Cineclube Macaíba e  integra a Yalodê – Rede de Mulheres de Terreiros.


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